No livro “Por uma outra globalização – do pensamento único à consciência universal”, Milton Santos aborda a questão da globalização como sendo três mundos distintos: o primeiro seria aquele que o capitalismo quer que vejamos; o segundo seria o mundo tal como ele é; e o terceiro seria o mundo como ele pode ser. Adiante, faço uma breve resenha crítica dessas três distinções e apresento o caminho, segundo o autor, para superação da globalização capitalista.
A globalização como fábula seria aquela difundida pelo capitalismo, pela qual o mundo está ao alcance de todos: difusão instantânea de notícias, noção de tempo e espaço contraídos e enfraquecimento do Estado. Por essa idéia, o consumo é estimulado e o mercado é dito como global e capaz de homogeneizar o planeta. É o mundo a um passo de uma cidadania universal. Na verdade, quando se fala em difuão istantânea de notícias, pensa-se que, desta forma, as pessoas são informadas dos acontecimentos. Entretanto, ignora-se o fato de que muitas das notícias divulgadas possuem um conteúdo manipulado em favor do capitalismo, do consumo. O mesmo acontece quando acreditamos que o mercado global seja capaz de homogeneizar o planeta. Pelo contrário, ele acentua as diferenças, uma vez que coloca preço em tudo e só quem tem dinheiro pode comprar. Dessa forma, o mundo vai se afastando cada vez mais da uniformidade, fazendo com que o sonho de uma cidadania universal fique cada vez mais longe.
A globalização como perversidade é aquela em que as mazelas do mundo são reconhecidas: aumento do desemprego, aumento da probreza e diminuição da qualidade de vida, aparecimento de doenças, mortalidade infantil, baixo acesso à uma educação de qualidade, corrupção, etc. É como se um problema fosse gerando o outro. Nem o avanço da medicina é capaz de evitar mortes por doenças supostamente extirpadas. As pesquisas em educação não são suficientes para universalizar um ensino-aprendizagem de qualidade. A corupção barra as ações de melhora da sociedade. Essa evolução negativa da sociedade esta diretamente ligada aos processos de globalização que, ao buscar uma homogeneização do planeta – capitalismo -, acaba por estimular comportamentos competitivos que, ressalto, afasta o mundo da uniformidade e da cidadania universal.
Quando falamos em “outra globalização” estamos nos referindo a construção de uma globalização mais humana. Para isso é preciso utilizar as bases materais do capitalismo – unicidade da técnica, convergência dos momentos e conhecimento do planeta, por exemplo – em favor de fundamentos sociais e políticos que visem a construção de uma nova história para o mundo.
Nessa perspectiva, seria papel dos intelectuais combater a alienação e, assim, levar a reflexão da sociedade em geral – sua historia, seus anseios –, em busca de uma política condizente com seu interesse social. Entretanto, o processo de tomada de consciência é diferente em cada indivíduo. É preciso enxergar as situações como um conjunto, a interdependência das causas e efeitos. A partir daí é que o sujeito percebe que tudo depende do mundo. Surge, então, a visão critica da história na qual vivemos, com apreciação filosófica da situação individual diante da comunidade, da nação e do planeta, bem como uma descoberta do seu papel como cidadão.
Essa mudança, quando feita em grande parte da população, permitirá a realização de uma vida coletiva solidária e abrangente, pela qual se valorizará o planeta como um todo. Essa valorização só vai ser possível com implantação de um novo modelo econômico, social e político conseguido por uma nova distribuição dos bens e dos serviços.
A globalização é um processo irreversivel da humanidade. Entretanto, a globalização de hoje não é a desejada. E para mudá-la, para se construir um novo mundo, é preciso uma mobilização que vai de baixo para cima, que parta de cada indivíduo até alcançar toda a sociedade – ou pelo menos grande parte dela.
O próprio titulo da obra, “Por uma outra globalização – do pensamento único à consciência universal”, já nos mostra o caminho para superar a globalização capitalista. Cabe a nós, futuros educadores, sermos educadores da desalienação para que possamos despertar em nossos alunos uma consciência abrangente, que o instigue a investigar o seu papel como cidadão não só em seu bairro, mas em todo o planeta. É preciso que os professores tenham esperança na melhora e creiam que o seu bom trabalho pode contribuir para a formação de um sentimento de mudança em cada um que passar por sua sala de aula.
Marcela Oliveira Lana


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