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domingo, 6 de dezembro de 2009

A Carta da Terra




             A Carta da Terra é fruto de um diálogo mundial, de uma década, entre várias culturas,sobre objetivos em comum e valores compartilhados. Ela foi delineada por uma iniciativa da sociedade civil e lançada em 2000. A missão da Iniciativa da Carta da Terra é promover a transição para estilos de vida sustentáveis e de uma sociedade global fundamentada em um modelo de ética compartilhada, que inclui o respeito e o cuidado pela comunidade da vida, a integridade ecológica, a democracia e uma cultura de paz.          
            Este Guia é direcionado a todos os educadores que se interessam em desenvolver sistemas e programas educacionais que preparam jovens e adultos para um modo de vida sustentável como cidadãos locais e globais, responsáveis no século 21. Fornece informações básicas sobre como usar a Carta da Terra em experiencias educacionais. É de grande auxílio para educadores que trabalham nas áreas de educação ambiental, educação para o desenvolvimento sustentável, educação de direitos humanos, educação de ecologia humana, educação da paz, educação humanitária, educação social e áreas associadas.
            A Carta da Terra também pode ser usada para avaliar e reconstruir o currículo inteiro e as práticas de gestão de uma instituição educacional com o objetivo de assegurar que a instituição esteja fazendo tudo que pode para preparar os alunos para os grandes desafios de nossos tempos. A segunda parte deste guia descreve, em linhas gerais, a educação para formas de vida sustentáveis e a importância da Carta da Terra como um recurso de ensino e aprendizado. A terceira parte discute o significado de ética e explica o papel importante dos valores ético na Carta da Terra. A quarta parte identifica temas principais que a Carta da Terra pode ajudar a abordar em diversos ambientes educacionais.
            A quinta parte lista vários objetivos educacionais que os professores podem considerar quando usarem a Carta da Terra. A sexta parte apresenta diretrizes para desenvolver materiais e programas educacionais baseados na Carta da Terra. O Princípio 14 da Carta da Terra enfatiza a necessidade de “integrar na educação formal e no aprendizado de uma vida inteira o conhecimento, os valores e as habilidades necessárias para se er uma forma de vida sustentável”. Desde o começo, a educação tem estado no centro do propósito da Carta da Terra e tem sido um dos principais focos dos programas desta Iniciativa. Um importante conjunto de conhecimentos vem sendo desenvolvido em torno do uso da Carta da Terra no ensino e no aprendizado. Educadores de todas as regiões do mundo têm contribuído para esse conjunto de conhecimentos, baseando-se em suas experiências práticas na aplicação da Carta da Terra em diversos ambientes educacionais. A Carta da Terra está sendo usada na educação de todas as idades e dentro de contextos formais e não-formais.
            Tem provado ser um instrumento de ensino muito valioso no campo da educação ambiental, e seus princípios estão de acordo com as primeiras definições de educação ambiental da UNESCO encontradas na Carta de Belgrado (1975) e na Declaração Tbilisi (1977). Tem sido utilizada na educação dos direitos humanos e de paz e em novos esforços educacionais, que têm como objetivo a
sustentabilidade, designada de várias maneiras, como a educação para desenvolvimento sustentável, educação para sustentabilidade e, até mesmo, educação ambiental para o desenvolvimento sustentável. Nesses diversos cenários, a Carta da Terra está contribuindo para a conceitualização crítica dos processos de educação que visam desenvolver a compreensão e promover justiça, sustentabilidade e paz.
             A Organização das Nações Unidas declarou que 2005-2014 é a Década da Educação para o Desenvolvimento Sustentável (DESD), e o entendimento da ONU da Educação para Desenvolvimento Sustentável inclui questões mais amplas de justiça, sustentabilidade e paz. De acordo com o plano da UNESCO para a implementação do DESD, o objetivo principal do DESD é “integrar os valores inerentes ao
desenvolvimento sustentável em todos os aspectos do aprendizado para encorajar mudanças de comportamento que permitam uma sociedade mais sustentável e justa para todos”. Uma pergunta-chave para DESD é: quais os valores inerentes ao desenvolvimento sustentável e os princípios éticos que podem guiar maneiras sustentáveis de viver?
            A Carta da Terra reflete um consenso crescente na emergente sociedade civil global sobre valores universais para o desenvolvimento sustentável e pode-se afirmar, sem dúvida, que representa um conjunto central de princípios éticos compartilhados por uma base ampla e multicultural de apoiadores globais. Na visão holística promovida pela Carta da Terra, o desenvolvimento sustentável ou maneiras sustentáveis de vida requerem mudanças nos corações e nas mentes dos indivíduos, assim como na reorientação de políticas e práticas públicas. A educação é chave para avançar a transição para maneiras mais sustentáveis de viver porque ela pode ajudar a gerar relacionamentos mais empáticos entre os humanos e entre os humanos e o mundo natural. Pode facilitar a procura criativa de formas de desenvolvimento que sejam mais ambientalmente e socialmente responsáveis. Para que isso aconteça, é crucial promover uma educação que ajude as pessoas a entenderem as mudanças fundamentais necessárias quando se busca o desenvolvimento sustentável.

Por Vladimir Ribeiro.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Link sobre Biocombustíveis.

Pessoal, boa tarde!!!

Segue link http://www.biologo.com.br/ecologia/ecologia8.htm  com informações muito interessantes sobre Biocombustíveis e sustentabilidade.

Vale a pena conferir...

Selma Dias.

Conhecendo os idealizadores do Blog!!!!

Galera, boa tarde!!!


Segue, abaixo, as fotos dos idealizadores do blog que está demais....




Daniel


Marcela



Michelle


Simone









Selma


Vladimir 




quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Milton Dos Santos







Biografia



                         O Prof. Dr. Milton Santos (Milton de Almeida Santos ou Milton Almeida dos Santos), nasceu em Brotas de Macaúbas, no interior da Bahia, no dia 03 de Maio de 1926. Geógrafo e livre pensador brasileiro, homem amoroso, afável, fino, discreto e combativo, dizia que a maior coragem, nos dias atuais, é pensar, coragem que sempre teve. Doutor honoris causa em vários países, ganhador do prêmio Vautrin Lud, em 1994 ( o prêmio Nobel da geografia), professor em diversos países (em função do exílio político causado pela ditadura de 1964), autor de cerca de 40 livros e membro da Comissão Justiça e Paz de São Paulo, entre outros. O Prof. Milton Santos formou-se em Direito no ano de 1948, pela UFBA (Universidade Federal da Bahia), foi professor em Ilhéus e Salvador, autor de livros, que surpreenderam os geógrafos brasileiros e de todo o mundo, pela originalidade e audácia: "O Povoamento da Bahia" (48), "O Futuro da Geografia" (53), "Zona do Cacau" (55) entre muitos outros. Em 1958, já voltava da Universidade de Estrasburgo, da França, com o doutorado em Geografia, trabalhou no jornal "A Tarde" e na CPE (Comissão de Planejamento Econômico-BA), precursora da Sudene, foi preso em 1964 e exilado.Passou o período entre 1964 a 1977 ensinando na França, Estados Unidos, Canadá, Peru, Venezuela, Tânzania; escrevendo e lutando por suas idéias. Foi o único brasileiro e receber um "prêmio Nobel", o Vautrin Lud, que é como um Nobel de Geografia. Outras de suas magistrais obras são: "Por Uma Outra Globalização" e "Território e Sociedade no Século XXI" (editora Record) .


Milton Santos, este grande brasileiro, morreu em São Paulo-SP, no dia 24 de Junho de 2001, aos 75 anos, vítima de câncer.


Edgar Morin


                

                                Biografia

 

              Nascido em Paris, filho único de uma família judia sefardi, seu pai, Vidal Nahoum, era um comerciante originário de Salônica. Sua mãe, Luna Beressi, faleceu quando ele tinha 10 anos. Ateu declarado, descreve-se como um neo-marrano). Estudou direito, história, filosofia, sociologia e economia. Em 1942, obteve a licenciatura em direito e em história e geografia. Em 1941, adere ao Partido Comunista, «num momento em que se sentia, pela primeira vez, que uma força poderia resistir à Alemanha nazista».
Entre 1942 e 1944, participou da Resistência, como tenente das forças combatentes francesas, adotando o codinome Morin, que conservaria dali em diante. Durante a Liberação, é transferido para a Alemanha ocupada, como adido ao Estado Maior do Primeiro Exército Francês na Alemanha, em 1945, e, em 1946, como chefe do departamento de propaganda do governo militar francês. Nessa época, escreve seu primeiro livro, L'An zéro de l’Allemagne ("O Ano Zero na Alemanha"), publicado em 1946, no qual descreve a situação do povo alemão no pós-guerra. O livro foi muito apreciado por Maurice Thorez, que o convida a escrever para a revista Lettres françaises. A partir de 1949, distancia-se do Partido Comunista, do qual será excluído em 1951, por suas posições antistalinistas. Aconselhado por Georges Friedmann, que conheceu durante a ocupação alemã, e com o apoio de Maurice Merleau-Ponty, de Vladimir Jankélévitch e de Pierre George, entra para o CNRS em 1950. Começa a escrever L'Homme et la Mort ("O Homem e a Morte"), lançado em 1951. Em 1955, coordena um comitê contra a guerra da Argélia e defende particularmente Messali Hadj, pioneiro da luta anticolonial e um dos próceres da independência da Argélia.
Em 1960, funda, na École des hautes études en sciences sociales (EHESS), o Centro de estudos de comunicação de massa (CECMAS), com Georges Friedmann e Roland Barthes, com a intenção de adotar uma abordagem transdisciplinar do tema, e cria a revista Communications. Morin é também fundador da revista Arguments (1957-1963). Nomeado diretor de pesquisa do CNRS em 1970, será também, entre 1973 e 1989, um dos diretores do Centro de estudos transdisciplinares da EHESS, sucessor do CECMAS.
É considerado um dos principais pensadores contemporâneos e um dos principais teóricos da complexidade.

OS SETE SABERES NECESSARIOS À EDUCAÇÃO DO FUTURO

Os sete saberes necessários à educação não são um programa educativo e não devem ser concentrados apenas em uma etapa de ensino. Eles são essenciais na formação de indivíduos que busquem realizar a cidadania terrena.

O primeiro saber é o conhecimento. É verdade que o ensino fornece conhecimento, mas não se ensina, de fato, o que é o conhecimento. Não se ensina a conhecer. A educação deve mostrar que não há conhecimento que não esteja ameaçado pelo erro e pela ilusão. A palavra conhecimento é fruto de uma tradução e de uma reconstrução que se faz através da linguagem e do pensamento. É uma percepção que fazemos sobre determinado aspecto. Dessa forma, o risco de erro é enorme, pois nossa percepção pode ser alterada por alguma perturbação. Nossas emoções podem interferir na maneira como encaramos uma mensagem. Elas podem nos cegar (ou iludir) e, ao mesmo tempo, fortalecer nossa capacidade de raciocínio. Cabe à educação o estudo sobre a origem dos erros, das ilusões e das cegueiras.
Morin classifica os erros em mentais, intelectuais e da razão. Os erros são mentais a medida que nenhum dispositivo cerebral permite distinguir alucinação de percepção, o sonho da vigília, o imaginário do real, o subjetivo do objetivo. Eles também são intelectuais, pois os sistemas de idéias (teorias, doutrinas, ideologias) não apenas estão sujeitas ao erro, como protegem os erros possivelmente contidos em seu contexto. E podem ser da razão quando racionalidade e racionalização se confundem, sendo que a racionalidade é a melhor proteção contra o erro e a ilusão enquanto a racionalização já é uma ilusão.
Conhecimento pertinente seria aquele que não mutila o seu objeto. É aquele que está inserido em um contexto e que é global. A sofisticação e a quantidade das informações são menos importantes do que a contextualização desse conhecimento.
O ensino deve estimular a ligação entre as partes e o todo, entre o todo e as partes, ou seja, entre a sociedade e a pessoa e entre a pessoa e a sociedade. Ele deve ser global. Deve reconhecer o caráter multidimensional e complexo do indivíduo (social, psíquico, racional, biológico, etc) e da sociedade (econômica, sociológica, religiosa, etc).
A educação deve promover a inteligência geral (do complexo e do multidimensional), deve favorecer a aptidão natural da mente em formular e resolver problemas essenciais e, de forma correlata, estimular o uso total da inteligência. Para isso, ela precisa superar as contradições do sistema de ensino que separa as ciências em disciplinas hiperespecializadas e fechadas em si mesmo. Contradições que fazem com que os indivíduos percam suas aptidões naturais de contextualizar os saberes.
A divisão em disciplinas impede o aprendizado do complexo – reduzindo-o ao simples –, do global – que é divido em fragmentos disjuntos –, do essencial – que não é percebido, mas dissolvido nas outras informações. É uma inteligência cega, que limita as possibilidades de compreensão e reflexão e reduz a subjetividade.
Precisamos aprender a juntar a parte e o todo, o texto e seu contexto, o individual e o planetário. Os educadores e educadoras devem enxergar a importância da educação nos desafios dos tempos atuais e, assim, trabalhar a construção do conhecimento, fazendo uma contextualização geral e específica sobre os assuntos que irá ministrar, sempre considerando o risco do erro. Eles e elas devem se perceber como sujeitos da educação, assim como seus alunos. Devem contribuir para a realização da cidadania terrena, pela qual os indivíduos – sujeitos da educação – se vêem como parte do planeta e responsáveis por ele.

Simone Caetano Silva


POR UMA OUTRA GLOBALIZAÇÃO


No livro “Por uma outra globalização – do pensamento único à consciência universal”, Milton Santos aborda a questão da globalização como sendo três mundos distintos: o primeiro seria aquele que o capitalismo quer que vejamos; o segundo seria o mundo tal como ele é; e o terceiro seria o mundo como ele pode ser. Adiante, faço uma breve resenha crítica dessas três distinções e apresento o caminho, segundo o autor, para superação da globalização capitalista.

A globalização como fábula seria aquela difundida pelo capitalismo, pela qual o mundo está ao alcance de todos: difusão instantânea de notícias, noção de tempo e espaço contraídos e enfraquecimento do Estado. Por essa idéia, o consumo é estimulado e o mercado é dito como global e capaz de homogeneizar o planeta. É o mundo a um passo de uma cidadania universal. Na verdade, quando se fala em difuão istantânea de notícias, pensa-se que, desta forma, as pessoas são informadas dos acontecimentos. Entretanto, ignora-se o fato de que muitas das notícias divulgadas possuem um conteúdo manipulado em favor do capitalismo, do consumo. O mesmo acontece quando acreditamos que o mercado global seja capaz de homogeneizar o planeta. Pelo contrário, ele acentua as diferenças, uma vez que coloca preço em tudo e só quem tem dinheiro pode comprar. Dessa forma, o mundo vai se afastando cada vez mais da uniformidade, fazendo com que o sonho de uma cidadania universal fique cada vez mais longe.
A globalização como perversidade é aquela em que as mazelas do mundo são reconhecidas: aumento do desemprego, aumento da probreza e diminuição da qualidade de vida, aparecimento de doenças, mortalidade infantil, baixo acesso à uma educação de qualidade, corrupção, etc. É como se um problema fosse gerando o outro. Nem o avanço da medicina é capaz de evitar mortes por doenças supostamente extirpadas. As pesquisas em educação não são suficientes para universalizar um ensino-aprendizagem de qualidade. A corupção barra as ações de melhora da sociedade. Essa evolução negativa da sociedade esta diretamente ligada aos processos de globalização que, ao buscar uma homogeneização do planeta – capitalismo -, acaba por estimular comportamentos competitivos que, ressalto, afasta o mundo da uniformidade e da cidadania universal.
Quando falamos em “outra globalização” estamos nos referindo a construção de uma globalização mais humana. Para isso é preciso utilizar as bases materais do capitalismo – unicidade da técnica, convergência dos momentos e conhecimento do planeta, por exemplo – em favor de fundamentos sociais e políticos que visem a construção de uma nova história para o mundo.
Nessa perspectiva, seria papel dos intelectuais combater a alienação e, assim, levar a reflexão da sociedade em geral – sua historia, seus anseios –, em busca de uma política condizente com seu interesse social. Entretanto, o processo de tomada de consciência é diferente em cada indivíduo. É preciso enxergar as situações como um conjunto, a interdependência das causas e efeitos. A partir daí é que o sujeito percebe que tudo depende do mundo. Surge, então, a visão critica da história na qual vivemos, com apreciação filosófica da situação individual diante da comunidade, da nação e do planeta, bem como uma descoberta do seu papel como cidadão.
Essa mudança, quando feita em grande parte da população, permitirá a realização de uma vida coletiva solidária e abrangente, pela qual se valorizará o planeta como um todo. Essa valorização só vai ser possível com implantação de um novo modelo econômico, social e político conseguido por uma nova distribuição dos bens e dos serviços.
A globalização é um processo irreversivel da humanidade. Entretanto, a globalização de hoje não é a desejada. E para mudá-la, para se construir um novo mundo, é preciso uma mobilização que vai de baixo para cima, que parta de cada indivíduo até alcançar toda a sociedade – ou pelo menos grande parte dela.
O próprio titulo da obra, “Por uma outra globalização – do pensamento único à consciência universal”, já nos mostra o caminho para superar a globalização capitalista. Cabe a nós, futuros educadores, sermos educadores da desalienação para que possamos despertar em nossos alunos uma consciência abrangente, que o instigue a investigar o seu papel como cidadão não só em seu bairro, mas em todo o planeta. É preciso que os professores tenham esperança na melhora e creiam que o seu bom trabalho pode contribuir para a formação de um sentimento de mudança em cada um que passar por sua sala de aula.

Marcela Oliveira Lana


Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal.





De Milton Santos


Por Daniel Ribas



Nesta obra, o geógrafo Milton Santos defende a idéia de que é preciso uma nova interpretação do mundo contemporâneo, uma análise multidisciplinar, que tenha condições de destacar a ideologia na produção da história, além de mostrar os limites do seu discurso frente à realidade vivida pela maioria dos países do mundo. A informação e o dinheiro acabaram por se tornar vilões, à medida em que a maior parte da população não tem acesso a ambos. São os pilares de uma situação em que o progresso técnico é aproveitado por um pequeno número de atores globais em seu benefício exclusivo. Resultado - aprofundamento da competitividade, a confusão dos espíritos e o empobrecimento crescente das massas, enquanto os governos não são capazes de regular a vida coletiva. Apesar disso, reconhece o começo de uma evolução positiva nas pequenas reações que ocorrem na Ásia, África e América Latina. Talvez pode ser este o caminho que conduzirá ao estabelecimento de uma outra globalização. A proposta é levar uma mensagem de esperança na construção de um novo universalismo, menos excludente.
Ele nos aponta para um mundo de difícil percepção por conta da confusão reinante que nos tem levado à perplexidade. Portanto, toma para análise a realidade relacional do ser humano, e a esta realidade relacional perversa atribui os males revelados pelo território. Não aceita explicações mecanicistas pelo seu caráter insuficiente. Atribuindo ao desenrolar da história, capitaneada por determinados segmentos da sociedade, os males que tornam difícil a vida da maioria das mulheres e dos homens. Coloca na base deste processo confuso a tirania do dinheiro e da informação, transcende a Marx, e o dinheiro passa a produzir dinheiro, dominando o mundo da produção de mercadorias. Especulação, financeirização. A globalização é feita menor, sob a égide dos bancos e dos banqueiros, criando uma fábrica de perversidades. “O desemprego crescente torna-se crônico. A pobreza aumenta e as classes médias perdem em qualidade de vida. O salário médio tende a baixar. A fome e o desabrigo se generalizam em todos os continentes
A originalidade do autor se dispõe de forma atual, compreendendo também uma serie de disposições sobre artigos e conferências diversas.
O autor pretende, portanto, retratar o ser da sociedade globalizada social mostrando um dever ser de uma nova globalização, essa mais humanizada.
A discussão do papel da ideologia no atual sistema global tem importância capital no livro, isso garante também uma ênfase no papel da política, visto que essa se define como a “arte de pensar as mudanças e de criar as condições para torná-las efetivas”.
O autor faz uma profecia de um futuro de mudanças provindas de baixo para cima, onde o intelectual e seu pensamento livre desempenharão papel substancial nas próximas revoluções dos paradigmas mundiais.
A crítica recai ainda sobre a atual globalização com sua tendência ao tecnicismo e mecanização, levando a uma desumanização e a um progressivo domínio do capital perante a vida social ou pessoal.
Daí a sugestão de três vias de globalização para uma visão crítica da mesma, no intuito de revisá-la e reconstruí-la: A primeira seria a globalização como fábula; a segunda como perversidade; e a terceira como uma outra globalização, a do dever ser.
A primeira tentando mostrar os conceitos e ideologias da globalização atual no sentido de legitimar a si mesma. A segunda visando uma análise e entendimento das inúmeras e progressivas desigualdades e perversidades criadas pela globalização que se diz integradora e homogeneizadora. Já a ultima traz um conceito novo de globalização, através de uma integração real, social e humanitária, na qual as desigualdades se amenizariam, o tecnicismo ou o capital não se sobreporiam ao âmbito individual ou social, mas se dariam de forma inteligente e sustentável. Assim, não seria necessária a subjugação do ser humano, que teria a tecnologia trabalhando em seu favor, e não em favor do capital favorecedor de uma minoria.

A globalização atual não é irreversível
A mentalidade corrente no mundo, hoje, é de que a globalização é um processo que não poderia ser revertido e que o cenário atual é imutável.
Isso se deve ao fato de a sociedade estar dominada por uma concepção contaminada pela ideologia que predomina em nossa sociedade.
No entanto se podem fechar os horizontes analisando somente aquilo que predomina e nossa realidade. É necessário que se preste atenção nas perceptivas futuras, naquilo que pode vir a ser a nova realidade.
A história apenas começa
Antes havia uma história fragmentada, com repúdio a qualquer forma de diferenças das sociedades entre si.
A nova tendência é de uma miscigenação cultural entre as diversas nações que se relacionando entre si adquirem respeito umas pelas outras, aceitando as diferenças e até mesmo incorporando algumas delas entre si.
Deste modo brota uma nova consciência de ser do mundo, onde o mundo todo parece próximo de cada individuo e todos se sentem interligados. A Internet é um dos maiores exemplos desta interação cultural.
Espera-se uma grande mutação na história da humanidade que talvez traga uma reversão nesse processo de globalização desenfreado. Essa talvez introduza uma forma de pensar mais humanitária na consciência e na filosofia do homem.

A Opção terra e a urgência da ecologia.


BOFF, Leonardo. A Opção-terra e a urgência de ecologia. São Paulo: Ática, 1993. 180p

Resumo Crítico
Por Selma Dias

Diante de tantas ameaças resultantes da situação atual de nosso planeta Terra, busca-se a problematização da visão que as sociedades têm sobre o paradigma da extinsão da Humanidade.
A relação entre a espécie e a Ecologia perdura por séculos e estudiosos, cientistas, filósofos, buscam entender o porquê de tal calamidade que se encontra nossa Terra e qual a nossa atitude perante isto; como exposto pelo filósofo Søren Aabye Kierkegaard, através de uma parábola que tem a seguinte conclusão de que “...o mundo acabará no meio da hilaridade geral dos gozadores e galhofeiros que pensam que tudo, em fim, não passa de mera gozação.”(BOFF. Pág. 100)
Observa-se por este prisma, que seu fundamento é relevante, pois a questão ambiental não é tratada com a importância devida e a mesma está dando alertas que não são entendidos por governos, cientistas, o povo, como algo imune de problemas, como se tudo o que está sendo perdido dia após dia, pudesse ser reposto pela própria natureza.
O respeito pela crise da Terra, seria aprofundar a discusão para se assumir um papel frente aos desafios que se origina do aquecimento global e da crise ambiental que se abate sobre todo o planeta, mas para isso é necessário a demistificação dessa relação que temos com o ecossistema, não nos colocamos à parte e sim dentro deste sistema que temos construído e destruído.
O autor relata algumas vertentes da ecologia, como a ambiental, a política e social, a mental e a integral, que partem do conceito de transformação da nossa visão de Terra, ecossistema, vida, comunidade, cooperação e união como Todo.
No texto busca-se o resgate de um planeta que clama por socorro, pelo desenfreado consumismo obsoleto e absoluto, como sendo possível o resgate de tudo o que foi perdido, mas quando chegarmos ao caos, será tarde para recuar da credulidade que nos cerca de conceitos que Gaia se autoconstruirá, como resultado de nossa esperança forjada da ganância que atinge uma maioria de miséria que é refém de uma minoria que detém toda riqueza, produzindo a injustiça social e ecológica.
Esta resiliência passa a ser a chave de queda e restauração de todo o sistema-Gaia, como forma de esperança, como alternativa do novo que salvará a Humanidade do seu descaso e desrespeito com a Terra. São muitos os desafios assumidos por nós para se buscar a sustentabilidade, como forma de mudança radical da postura humana em relação à ecologia.
De todas a mais forte é a ecologia integral, onde temos que compreender além da ecologia ambiental, social, política e mental, que o Terra está inserida em um grande processo de transformação e evolução, como o Big Bang que por um momento uniu todos os seres num conjunto de energias e interações.
Existem quatro forças que sustentam tudo o que conhecemos, como a gravitacional, a eletromagnética, as nucleares fraca e forte, agindo e interagindo com todo o universo, seres e Humanidade, como se estivessem interligados e religados entre si. Até a galáxia mais distante está sob a ação destas energias primordiais.
A ecologia integral busca a união da Terra com o todo, como se estivem em totalidade o diverso com o Todo, isto exige uma mudança da visão na civilização dos seres humanos, pois ao se sentir esta parte do Todo, procuramos zelar e cuidar deste Todo que é a Terra, nossa mãe.
A religião assume um papel interessante nesta relação dos seres humanos com o Todo-Terra, pois as escolas naturais deveriam educar este olhar para este novo conceito de interação, como na figura da trindade, três divinas pessoas, que é Pai, Filho e Espírito santo, funciona como símbolo para representar esta “inter-retro-relação de todas as Pessoas entre si.”
Acredito que seria utópico pensar uma sociedade com uma nova visão de civilidade, pois ela está enraizada nos conceitos e descaso com o Planeta Terra, que não é de agora, mas está presente por séculos e séculos de exploração, seja da Terra, de culturas, de tudo o que proporciona lucro.
A Mãe Terra, clama por socorro, como o palhaço da parábola do filósofo Søren que vê o circo pegar fogo e todos olhando com gozação a cena que os faz rir, assim é a Terra que emana alertas que não são visto, escutados, nem seguer notados; e somente em chamas, se notará que é tarde demais.
A Nanotecnologia é uma partícula invisível com alta mobilidade, a mesma convergem os conhecimentos da física, da química e da biologia, mas por estarem submetidas as leis da física quântica ainda são imprevisíveis e os avanços obtidos desta tecnologia estão sob suspeita, de sua efetiva ajuda à Humanidade, pois como podemos nos defender de uma ameaça microscópica?
A problematização acerca da ecologia abre novas possibilidades para se precaver da situação caótica que a Terra se encontra atualmente, para se encontrar o equilíbrio necessário para se viver em paz com a Mãe Terra e propriciar um futuro à Humanidade.
A Ética para mim é o ponto chave da existência humana, pois sem ética não é possível se viver em conjunto, a ética seria um limite dos desejos humanos, onde não couberia a vantagem de um benefício individual ou de um grupo específio, afim de se buscar o Todo.
O Todo é muitas vezes desprezado pela visão reducionista enraizada na civilização, não se adianta ter ética, se por trás da mesma não se muda a visão de sociedade, como parte do Todo. Este reconhecimento de um limite leva a Humanidade a um novo sentido de se viver em harmonia com a comunidade de vida de nossa Terra.
Acredito que falta entendermos isso para se encontrar a solução deste caos ecológico, temos que entender que a ecologia é parte de nós e nós dela, como inter-retro-relação, de pessoas, de culturas, de seres vivos, do Todo.
Só espero que vejamos o que estamos fazendo com nosso lema de “sustentabilidade”, ao se colocar o consumo e o lucro, como conciliador de todos os problemas ecológicos. Esta “sustentabilidade” só será possível com uma mudança efetiva de nossa visão fria de ecologia, trazendo para dentro de nós, no coração, o que é viver numa Terra, que oferece e nunca recebe em troca, nem mesmo a gratidão e o respeito.

A Mundialização e a Era Planetária

Por
Rafael Dall’Agnol, Dr.


1. Introdução


“As manifestações bem sucedidas não são necessariamente as que mobilizam o maior numero de pessoas, mas as que atraem maior interesse entre os jornalistas. Exagerando apenas um pouco, poder-se-ia dizer que cinqüenta sujeitos inteligentes que conseguem obter cinco minutos na TV para um happening bem sucedido podem produzir um efeito político comparável ao de meio milhão de manifestantes”.
(Barnet, 1981)


Pode-se dizer que a mundialização do nosso planeta é a sua globalização em sentido mais amplo, cujos reflexos se fazem sentir nos aspectos mais diversos de nossa vida.
O mundo cada vez mais está se tornando um todo, a informação circula on line pelo mundo, aliás, tudo circula quase que on line pelo mundo: alimentos, roupas, automóveis, eletro-eletrônicos, pessoas...
A informação, como vê-se a seguir, nunca foi tão globalizada.
As circunstâncias atuais parecem indicar que a globalização, principalmente, da economia, com todas as suas conseqüências sociais, ambientais e culturais, é um fenômeno que, no mínimo, irá durar. O fim da bipolaridade ideológica no cenário internacional, a saturação dos mercados dos países mais ricos e a ação dos meios de comunicação, aliados a um crescente fortalecimento do poder das corporações e a inversa redução do poder estatal pelas insistentes e constantes privatizações (pelo menos nos países que não constituem potências de primeira ordem) são apenas alguns dos fatores que permitem esse prognóstico.
Está havendo claramente uma redistribuição das funções econômicas, sociais, ambientais e quiçá culturais no mundo, disseca-se no decorrer suas conseqüências.


2. A Humanidade em Produção na Era Planetária
Um mesmo produto final é feito com materiais, peças e componentes produzidos em várias partes do planeta.
Produzem-se os componentes onde os custos são mais adequados. Como a produção de componentes é feita em escala global, alimentando indústrias de montagem em várias partes do mundo, pequenas variações de custos produzem, no final, notáveis resultados financeiros, como se vê em outro tópico especial.
Tem-se ai exposto o desenvolvimento técnico-econômico que torna insustentável a vida no planeta; e na vivência da era planetária acaba por cada vez mais ressaltar os contrastes mundiais.

3. O Circuito Planetário do Conforto X O Circuito Planetário da Miséria
Nenhum homem faminto e sóbrio pode ser convencido a gastar o seu último dólar em outra coisa que não comida. Mas uma pessoa bem alimentada, bem vestida, bem abrigada e em tudo mais bem cuidada pode ser convencida a escolher entre um barbeador e uma escova de dentes elétrica.
(Galbraith, 1974)

Na aldeia global em que vivemos fica cada vez mais fácil nos comunicarmos e nos conectarmos com o mundo, o telefone celular está em todas as esquinas, os Satélites estão no espaço, TV a cabo, Internet, Internet 2, etc; tudo isso coloca um fim as distâncias e acaba por aproximar e unir as pessoas; certo ?
Não, errado !
Toda esta modernidade e tecnologia acaba por afastar as pessoas cada vez mais, afasta definitivamente as classes sociais.
Vamos pegar dois meninos de idades escolares idênticas, o primeiro morador de uma próspera cidade do interior da Inglaterra, e o segundo filho de bóias-frias do interior do Ceará, no Brasil.
O primeiro após a sua jornada escolar vai para a sua casa e senta-se em frente de seu Pentium 900, 128 Mb, Internet, DVD, o “escambau” e começa a fazer seu dever de casa com o auxílio da tecnologia MMX; já nosso segundo personagem quanto chega ao rancho de sua família, feito de modo sofrido, de paredes de barro e chão batido, pega a lamparina a querosene (eletricidade nem pensar: “é coisa de primeiro mundo”, lhe disse o seu pai) e a sua velha cartilha escolar, que outrora já havia pertencido ao seu irmão mais velho (que por sua vez já abandonou a escola) e agora dedica o resto de suas forças de seu corpo desnutrido para realizar seu “dever” escolar.
Mas agora me responda: qual dos dois meninos pensa mais? Qual dará maior valor ao fato de já saber escrever a graça que lhe deram?
A mundialização por muitas vezes torna árduo o caminho à sabedoria.
Não há tempo para estudar, a cana e o sisal esperam o nosso menino do “terceiro mundo”, a fome está o tempo todo ao lado, o trabalho é mais importante neste instante para se sobreviver; afinal de contas temos que alimentar e vestir o “menino Europeu”.
Vemos então que a tecnologia que falamos anteriormente é concentrada em uma minoria que possui estudo e capital. O capital sempre será bem empregado, colaborando com a cavalgada cada vez mais incontrolável do capitalismo.
O pobre e o miserável podem ver tudo, mas não irão entender nada, pois a eles só restou a luta pela sobrevivência no cenário uno que se encaminha nossa Terra, estão carentes de “educação”.
Acaba a realidade da Aldeia global sendo uma ilusão de uma minoria comodista que não se preocupa com as desigualdades sociais.
Social é a união de classes, mas o que fazer quando as próprias classes se acomodam ao ponto de ficarem passivas atrás das telas dos televisores e dos computadores?


3. E o Século XX...
3.1 A evolução para a morte e a morte ecológica pela evolução:
(Informação globalizada?)
A economia de guerra proporciona abrigos confortáveis para dezenas de milhares de burocratas com e sem uniforme militar que vão para o escritório todo dia construir armas nucleares ou planejar um 0guerra nuclear, milhões de trabalhadores cujo emprego depende do sistema de trerrorismo nuclear; cientistas e engenheiros contratados para buscar aqula “inovação tecnológica” final que pode oferecer segurança total; fornecedores que não querem abrir mão lucros fáceis; intelectuais guerreiros que vendem ameaças e bendizem guerras. (Barnet, 1981) .

Para renomado historiador Eric Hobsbawm nosso universo nasceu há 15 bilhões de anos, numa maciça superexplosão, e, segundo as especulações cosmológicas pode acabar de maneira igualmente dramática.
Ao longo do século XX, a globalização do capital foi conduzindo à globalização da informação e dos padrões culturais e de consumo.
Isso deveu-se não apenas ao progresso tecnológico, intrínseco à Revolução Industrial, mas - e sobretudo - ao imperativo dos negócios. A tremenda crise de 1929 teve tamanha amplitude justamente por ser resultado de um mundo globalizado, ou seja, ocidentalizado, face à expansão do Capitalismo.
E o papel da informação mundializada foi decisivo na mundialização do pânico.
Ao entrarmos nos anos 80/90, o Capitalismo, definitivamente hegemônico com a ruína do chamado Socialismo Real, ingressou na etapa de sua total euforia triunfalista, sob o rótulo de Neo-Liberalismo. Tais são os nossos tempos de palavras perfumadas: reengenharia, privatização, economia de mercado, modernidade e - metáfora do imperialismo - globalização. A classe trabalhadora, debilitada por causa do desemprego, resultante do maciço investimento tecnológico, ou está jogada no desamparo , ou foi absorvida pelo setor de serviços, uma economia fluida e que não permite a formação de uma consciência de classe. O desemprego e o sucateamento das conquistas sociais de outros tempos, duramente obtidas, geram a insegurança coletiva com todas as suas mazelas, em particular, o sentimento de impotência, a violência, a tribalização e as alienações de fundo místico ou similares. No momento presente, inexistem abordagens racionais e projetos alternativos para as misérias sociais, o que alimenta irracionalismos à solta.
A informação mundializada de nossos dias não é exatamente troca: é a sutil imposição da hegemonia ideológica das elites.
Cria a aparência de semelhança num mundo heterogêneo - em qualquer lugar, vemos o mesmo McDonald`s, o mesmo Ford Motors, a mesma Mitsubishi, a mesma Shell, a mesma Siemens. A mesma informação para fabricar os mesmos informados. Massificação da informação na era do consumo seletivo.
Via informação, as elites (por que não dizer: classes dominantes?) controlam os negócios, fixam regras civilizadas para suas competições e concorrências e vendem a imagem de um mundo anti-séptico, eficiente e envernizado.
A alta tecnologia, que deveria servir à felicidade coletiva, está servindo a exclusão da maioria. Assim, não adianta muito exaltar as conquistas tecnológicas crescentes - importa questionar a que - e a quem - elas servem. A informação global é a manipulação da informação para servir aos que controlam a economia global. E controle é dominação. Paralelamente à exclusão social, temos o individualismo narcisístico, a ideologia da humanidade descartável, o que favorece a cultura do efêmero, do transitório - da moda. De resto, se o trabalho foi tornado desimportante no imaginário social, ofuscado pelo brilho da tecnologia e das propagandas que escondem o trabalho social detrás de um produto lustroso, pronto para ser consumido, nada mais lógico que desvalorizar o trabalhador - e, por extensão, a própria condição humana. Ou será possível desligar trabalho e humanidade?
É a serviço do interesse de minorias que está a globalização da informação. Ela difunde modas e beneficia o consumo rápido do descartável - e o modismo frenético e desenfreado é imperativo às grandes empresas.


4. A Globalização e o Meio Ambiente na Era Planetária

“Haverá escassez de viveres”
(Mateus, 24:7)

Os impactos da globalização sobre o meio ambiente decorrem principalmente de seus efeitos sobre os sistemas produtivos e sobre os hábitos de consumo das populações.
O meio ambiente, em todos os seus componentes, tem sido e continuará cada vez mais sendo afetado pelo processo de globalização.
Os fatores que implicam os custos de produção incluem as exigências ambientais do país em que está instalada a fábrica. Este fato tem provocado em muitos casos um processo de "migração" industrial. Indústrias são rapidamente montadas em locais onde fatores como disponibilidade de mão-de-obra, salários, impostos, facilidades de transporte e exigências ambientais, entre outros, permitem a otimização de custos
Outro fator que tem exercido pressão negativa sobre o meio ambiente e que tem crescido com a globalização é o comércio internacional de produtos naturais, como madeiras nobres e derivados de animais. Este comércio tem provocado sérios danos ao meio ambiente e colocado em risco a preservação de ecossistemas inteiros.
A existência de um mercado de dimensões globais, com poder aquisitivo elevado e gostos sofisticados, é responsável por boa parte do avanço da devastação das florestas tropicais e equatoriais na Malásia, Indonésia, África e, mais recentemente, na América do Sul.
A tradicional medicina chinesa, em cuja clientela se incluem ricos de todo o mundo, estimula a caça de exemplares remanescentes de tigres, rinocerontes e outros animais em vias de extinção. Mercados globalizados facilitam o trânsito dessas mercadorias, cujos altos preços estimulam populações tradicionais a cometerem, inocentemente, crimes contra a natureza.
Na agricultura e na pecuária, a facilidade de importação e exportação pode levar ao uso, em países com legislação ambiental pouco restritiva ou fiscalização deficiente, de produtos químicos e técnicas lesivas ao meio ambiente, mas que proporcionam elevada produtividade a custos baixos. É o caso, por exemplo, de determinados agrotóxicos que, mesmo retirados de uso em países mais desenvolvidos, continuam a ser utilizados em países onde não existem sistemas eficientes de registro e controle. Os produtos agrícolas e pecuários fabricados graças a esses insumos irão concorrer deslealmente com a produção de outros países.

4.1 Mas nem tudo é negativo para o Meio Ambiente na Era Planetária
Mas a globalização oferece também perspectivas positivas para o meio ambiente. Até pouco tempo era comum a manutenção, até por empresas multinacionais, de tecnologias ultrapassadas em países mais pobres e com consumidores menos exigentes.
A escala global de produção tem tornado desinteressante, sob o ponto de vista econômico, esta prática. É o caso, por exemplo, dos automóveis brasileiros. Enquanto a injeção eletrônica era equipamento comum na maior parte do mundo, por aqui fabricavam-se motores carburados, de baixa eficiência e com elevados índices de emissão de poluentes. Com a abertura do mercado brasileiro aos automóveis importados, ocorrida no início desta década, a indústria automobilística aqui instalada teve que se mover. Rapidamente, passou-se a utilizar os mesmos motores e os mesmos modelos de carrocerias usadas nos países de origem das montadoras. É claro que isto causou impacto sobre a indústria nacional de autopeças, pois uma grande quantidade de componentes, principalmente os mais ligados à eletrônica, passaram a ser importados, o que antes não era possível, dado o caráter fechado que até então dominava o nosso mercado interno.
Os efeitos sobre a emissão de poluentes dos veículos foi notável. Os efeitos não são ainda notados na qualidade do ar das grandes cidades, porque a maior parte da frota de veículos em circulação é antiga, com sistemas precários de regulagem de motores.
O mesmo efeito sentido na indústria automobilística estende-se a uma gama de outros produtos, como os eletrodomésticos. A globalização da produção industrial está levando à rápida substituição do CFC, em refrigeradores e aparelhos de ar condicionado, por gases que não afetam a camada de ozônio. Isto está ocorrendo em todos os países, pois não é interessante, economicamente, a manutenção de linhas de produção de artigos diferenciados de acordo com os países que os vão receber.
Outro efeito positivo da globalização sobre o meio ambiente é a criação de uma indústria e de um mercado ligados à proteção e recuperação ambiental.
Nesta lista incluem-se equipamentos de controle da poluição, sistemas de coleta, tratamento e reciclagem de resíduos sólidos e líquidos, inclusive lixo e esgoto urbanos, e novas técnicas de produção. São setores que movimentam fortes interesses econômicos, os quais acabam por influenciar os poderes públicos para que as leis ambientais sejam mais exigentes e haja instituições mais eficientes para torná-las efetivas.

Educação na era Planetária











PLANETA TERRA UM OLHAR TRANSDISCIPLINAR –

EDUCAÇÃO NA ERA PLANETÁRIA

por EDGAR MORIN.



Conférence Edgar Morin Education dans l’ère planétaire
-Bom dia a todos.
- Eu lamento muito não estar presente físicamente entre vocês, mas espero que em breve isto seja possível.
- Enquanto isto, vamos nos comunicar graças à técnica.
- Educar para a era planetária significa que devemos nos questionar para saber se nosso sistema educacional está baseado na separação dos conhecimentos. Conhecimentos estes que as disciplinas separam, e não somente elas as separam, como tampouco comunicam. Nós aprendemos a analisar, a separar, mas não aprendemos a relacionar, a fazer com que as coisas comuniquem. Ou seja, o tecido comum que une os diferentes aspectos dos conhecimentos em cada disciplina se torna completamente invisível; ora, existe um tecido comum, mesmo que você estude economia. A economia é uma ciência extremamente precisa, baseada no cálculo. O cálculo ignora os sentimentos, as paixões humanas; além do mais, a visão puramente econômica ignora o fato de que não há só economia na economia, há também desejo, medo, crença, política. Tudo está ligado, não só na realidade humana, como também na realidade planetária. Portanto, podemos imaginar que nosso sistema educacional é inadequado. Vejam a palavra “complexidade”. Ela vem do latim complexus, “aquilo que é tecido”. Vemos, então, que nosso sistema educacional nos torna incapazes de conceber a complexidade, isto é, as inumeráveis ligações entre os diferentes aspectos dos conhecimentos. Isto é mais grave hoje, porque a época planetária se manifesta através de uma extrema interação entre fatores diversos: econômicos, religiosos, políticos, étnicos, demográficos etc. Fica mais difícil entender esta época em que o local é separável do global e o global influi sobre o local. Eu diria até que nós não percebemos que nossa vida cotidiana de indivíduo é determinada pela era planetária, que começou com a conquista das Américas, a partir de 1492, e com a navegação portuguesa pelo globo no final do século 15. A era planetária começou no início do século 16. Aqui no Brasil, por exemplo, nós ignoramos que o café, um produto tipicamente brasileiro, vem do sul da Arábia, do Iêmem. Ele se expandiu pelo império Otomano durante os séculos 13, 14, 15 e quando os turcos chegaram às portas de Viena, no século 16, eles trouxeram o café para o Ocidente. Daí o café foi transplantado para a Colômbia, o Brasil, o Venezuela, ou seja, para a América Latina. Coisas tão banais como o cavalo, que foi importado da Europa, assim como o boi, o trigo. Em compensação, na Europa estamos convencidos de que o tomate é um produto típico do Mediterrâneo, mas ele veio das Américas, como o milho também. É dizer que a era planetária começou no século 16. E hoje ela é cada vez mais forte, mais intensa. E nós devemos conhecê-la, para saber quem somos e para onde o mundo, a humanidade estão indo. O que supõe que nós nos questionemos sobre a humanidade, sobre as relações entre os humanos, sobre o conhecimento. E por que isto? Porque, curiosamente, se ensinam conhecimentos, mas nunca o que é o conhecimento. Ora, sempre há no conhecimento um risco de erro, de ilusão. Aliás, muitos conhecimentos que no passado achávamos certos, hoje os consideramos errados, ilusórios; muitas idéias que no século 20 nos pareciam justas foram abandonadas. Portanto, há sempre uma margem de erro, de ilusão, que repousa na natureza mesmo do conhecimento. Por que isso? Porque a percepção que tenho do mundo exterior não é uma fotografia do mundo exterior pelos meus olhos; os estímulos luminosos que atingem meus olhos, minhas retinas, são traduzidos por uma infinidade de células em sinais binários que são transportados, então, pelo nervo óptico até o cérebro, onde se tornam uma percepção. Ou seja, qualquer conhecimento não passa de uma tradução, de uma reconstrução. E este fato vale também para o conhecimento teórico, pois as idéias, as palavras também são traduções, reconstruções. A prova que minha percepção não é uma fotografia é o fenômeno conhecido como “constância perceptiva”: assim, mesmo que na minha retina a imagem das pessoas que se encontram no fundo da sala seja pequena e a das pessoas que estão na primeira fila seja grande, jamais vou ver as pessoas do fundo da sala como anões e as da primeira fila como gigantes. Automaticamente, sem que eu esteja consciente disso, restabeleço o tamanho real das pessoas ainda que a imagem visual que tenho delas seja diferente nos meus olhos. No entanto, este fenômeno existe e faz com que sempre corramos o risco de errar na interpretação e os erros vão se multiplicando com as idéias, com as teorias tanto que nossos conhecimentos sofrem do fenômeno psicológico que os ingleses chamam de self deception, ou seja, “mentir a si mesmo”. Freqüentemente nós mentimos para nós mesmos e sequer o percebemos. Transformamos nossas lembranças, esquecemos aquelas que nos incomodam, embelezamos as ruins; o fenômeno da self deception é absolutamente cotidiano.
Então, além do erro, há uma fonte psicológica e também uma fonte cultural, pois desde criança lidamos com o que chamo a unprainting cultural, que é a marca da cultura através não só da linguagem, como das idéias fortes, das crenças. Em geral, quando a marca de uma cultura é muito forte, ela impede que as idéias diferentes, não conformes a ela, se exprimam. Há um fenômeno que podemos chamar de normalização, ou seja, tudo aquilo que não é normal é afastado e há também um processo de eliminação de tudo que parece ser desviante. Portanto, quando estamos numa sociedade pluralista em que tal normalização não chega a ser tão massiva, mas que perdura assim mesmo, inclusive no meio cientifico, há uma tendência em ver-se certos dogmas se consolidarem e durarem. É, por exemplo, o problema da marca cultural ou, mais profundamente ainda, o problema do que podemos chamar os “paradigmas”, isto é, os princípios que organizam o conhecimento de uma forma sobre a qual estamos inconscientes. Falando do sistema educacional, um paradigma que chamaremos “simplificação” domina nosso ensino, em que para conhecer nós separamos, reduzimos o que é complexo a simples. Tal visão mutila nosso conhecimento. O problema, então, é conseguirmos obedecer a um paradigma que possibilite diferenciar e ao mesmo tempo relacionar. E justamente o paradigma que domina o conhecimento na nossa civilização e na nossa sociedade é um paradigma que impede o conhecimento complexo, o conhecimento da era planetária.
E, enfim, existe outro obstáculo ao conhecimento que tentei levantar no livro O método, que trata do tema da possessão pelas idéias. Nós pensamos ter idéias que utilizamos para conhecer, o que é certo, porém, isto é apenas um dos aspectos da realidade. Na verdade, as idéias que surgem numa comunidade tomam força e energia. Não somos sós nós que as possuímos, elas também nos possuem. Isso é verdade no que diz respeito aos deuses, às religiões: é verdade que a fé de uma comunidade cria os deuses. Mas esses deuses, uma vez que existem, têm um poder enorme, eles nos obrigam a nos ajoelhar diante eles, a suplicá-los, eles nos dão ordens, pedem que façamos sacrifícios, podem até pedir que sacrifiquemos nossa própria vida. E o que é verdade para os deuses, vale também para as idéias, o que chamamos de ideologia. Podemos morrer, matar por uma idéia. Isso já aconteceu e isso voltará a acontecer. Então, como não ser possuído por estas idéias?
Como manter uma relação civilizada? Como controlar as idéias? Porque só podemos lutar contra essas idéias com outras idéias. E como ter idéias em uma escala humana? Então, temos todos estes problemas juntos, que nos mostram que a questão do conhecimento, ou seja, de conhecer o conhecimento não pode ser algo reservado a uma elite de estudiosos da epistemologia, confinados num ensino restrito, filosófico. É algo que deve começar no ensino primário e prosseguir no ensino secundário, e continuar na universidade.
Além do mais, há outro aspecto no conhecimento que é a pertinência. Um conhecimento pertinente não é um conhecimento sofisticado, ou fundado sobre cálculos rigorosos. Um conhecimento pertinente é aquele que permite situar as informações que recebemos no seu contexto geográfico, cultural, social, histórico. É claro que estamos permanentemente aprendendo nomes de lugares, de países que desconhecemos, como foi o caso com o Timor Leste ou o Kosovo e as informações que recebemos, por exemplo, sobre acontecimentos como um tsunami, ou um terremoto no Paquistão, não significam nada se não conhecemos a geografia e também a história, a cultura, ou seja, precisamos contextualizar e situar um conhecimento peculiar no conjunto global a que ele pertence. Então, é certo que o ensino de uma disciplina isolada atrofia a aptidão natural da mente a contextualizar os conhecimentos. Como já falei, as ciências baseadas unicamente no cálculo ignoram a humanidade dos sentimentos e da vida concreta. É por isso também que não devemos pensar que o melhor conhecimento é aquele que se exprime através do cálculo. Devemos usar o cálculo, mas existem outros modos que escapam ao cálculo e que nos são necessários. Então, o contexto situa uma parte dentro da totalidade em que ela está inserida, mas também o todo numa parte. Porque na complexidade não há só partes que constituem o todo, há também o todo na parte. Por exemplo: enquanto organismo, sou feito de células diferentes e de células que constituem minha pele. Cada célula contém a totalidade de meu patrimônio genético, mas, claro, a maior parte deste patrimônio está inibido e só aquela que diz respeito a minha pele se exprime.
Mas hoje nós sabemos que podemos, com uma única célula, em boas condições, estimular este patrimônio e criar um clone meu. Em outras palavras, não somente a célula é uma parte do meu organismo todo como a totalidade do meu organismo se encontra numa única célula minha. Outrossim, cada um de nós é uma pequena parte da sociedade, mas a sociedade, como um todo, se encontra em cada indivíduo através da linguagem, da cultura, da família. Ou seja, a relação “tudo é parte” é muito complexa e assim como eu disse no início dessa conferência somos indivíduos no planeta, mas na realidade o planeta está em cada um de nós, o que torna mais importante ainda a necessidade de conhecer a era planetária. Por isso, no meu trabalho sobre o método procurei elaborar instrumentos de pensamento que nos permitam ligar os conhecimentos, para que possamos relacionar o conhecimento da parte e do todo dentro do que chamei “princípio do holograma”, pois no holograma uma pequena parte singular contém a totalidade do que está representado. Mas não vou desenvolver este aspecto, seria muito demorado.
Quero dizer simplesmente que com o “princípio do holograma”, com a idéia da recursão, da dialógica, tentei elaborar instrumentos para pensar, sem os quais não podemos entender a complexidade do real, isto é, a complexidade da era planetária.
Isto dito, o que é a era planetária? É uma era em que todos os seres humanos se encontram unidos numa espécie de comunidade do destino cada vez maior. Mas então surge algo mais importante ainda para o conhecimento, que é saber o que é “ser humano”? O que é a identidade humana? O que é a condição humana? Percebemos que tudo isso é completamente ignorado no nosso sistema educacional. Existem as ciências humanas, mas elas são separadas umas das outras e se comunicam muito mal: a história, a sociologia, a psicologia, a ecologia, a demografia, a economia são vizinhas, mas não se comunicam. Por outro lado, a realidade humana não reside só nas ciências humanas, ela se encontra também nas ciências biológicas uma vez que nós não somos unicamente animais, mas somos também animais. Sabemos que 98% de nosso genótipo é idêntico ao do chimpanzé. A diferença é que ele se organiza de outra maneira. Somos animais como os outros animais, temos um cérebro, um fígado, um baço, um coração, em suma, fazemos parte do mundo da vida e somos não só seres vivos, não só primatas e mamíferos, somos também máquinas, máquinas psico-químicas. Meu organismo funciona a 37°, ele é uma máquina térmica que gasta energia e produz calor. Por isso precisa se alimentar para recuperar energia. Mas sabemos que somos feitos de elementos psico-químicos cujos mais elementares se formaram praticamente ao mesmo tempo que o universo, nas partículas que surgiram há 15 bilhões de anos; sabemos que os átomos de carbono surgiram num sol anterior ao nosso, que as moléculas que se uniram para formar o ser humano se juntaram na Terra; em suma, não se pode destacar os seres humanos da aventura cósmica e da aventura da vida. Claro que somos diferentes pela consciência, pela cultura, pelo pensamento, mas somos ao mesmo tempo animais e, mais do que animais, somos seres vivos e mais do que seres vivos - e é esta realidade que precisamos entender hoje principalmente, porque a ignoramos antes. Por termos ignorado essa realidade, as forças técnicas enfureceram-se sobre o planeta, provocando hoje um problema de degradação das condições da biosfera que vai ameaçar nossa própria existência nos próximos dez anos.
Pensando conquistar e dominar o mundo nos atiramos numa aventura que está nos levando à destruição. Precisamos sentir até que ponto devemos não nos reduzir a seres naturais, mas mostrar nossa condição de ser natural e nossa condição específica de ser humano. Isso faz parte da condição humana e a condição humana é o quê? Somos triplos, uma espécie de trindade humana: indivíduos, uma espécie e membros de uma sociedade, três coisas absolutamente inseparáveis porque, por exemplo, como indivíduos somos o produto da reprodução sexual; para que a reprodução da espécie continue, é necessário que dois indivíduos se acasalem, ou seja, a espécie produz os indivíduos que produzem a espécie; nós, indivíduos, produzimos a sociedade por nossas interações, mas a sociedade, com sua cultura, nos transforma em indivíduo plenamente humano. A sociedade produz o indivíduo que produz a sociedade. Esse laço fundamental entre esses três aspectos, que tendemos a dissociar, é indispensável ensinar, o que não ocorre. Por outro lado, a maneira como pensamos nos torna incapazes de conceber ao mesmo tempo a unidade e a diversidade humana, o que faz com que a unidade humana, que é genética, anatômica, cerebral e afetiva, seja incontestável, mas aqueles que enxergam a unidade não vêem a diversidade; e quem vê as diversidades humanas, as diferenças entre os indivíduos, entre as raças, entre as culturas, entre as línguas, passam a não perceber a unidade, quando é necessário ver ambas as coisas. É isso, a meu ver, a complexidade: uma unidade que produz a diversidade. Por exemplo, dizemos que o que é específico da humanidade é a cultura, ou seja, a linguagem, o saber que se transmite etc. Certo, mas nunca percebemos a cultura que conhecemos pelo prisma das outras culturas; o que caracteriza o ser humano é a linguagem, certo, mas a linguagem não existe, ela só existe através das línguas que diferem umas das outras. Todas as sociedades possuem sua música, mas a música em si não existe. Conhecemos a música através das músicas. E preciso ser capaz de pensar a unidade e a diversidade, isso é capital. Por quê? Porque hoje o que é que está sendo ameaçado é a espécie humana enquanto unidade, porque existem enormes riscos para a biosfera, riscos de tipo nuclear, com as armas de destruição massiva; riscos de uma nova guerra, que ameaçam acabar com a espécie humana; então a humanidade está ameaçada enquanto espécie. Mas ao mesmo tempo o processo de unificação ameaça as diversidades culturais. Hoje há uma tendência para a homogeneização. É preciso querer salvar, preservar as diversidades culturais que são uma riqueza para a humanidade. Portanto, devemos proteger a unidade e a diversidade e se não tomarmos consciência disso estaremos cegos, cegos se protegermos a diversidade local sem levar em conta o interesse de todos, ou se pelo contrário protegermos uma humanidade abstrata sem levar em conta as realidades concretas que são diversas. Além do mais, a condição humana é prisioneira de uma visão muito restrita da nossa concepção do homo spiens, do homo faber, do homo economicus. Homo sapiens significa o homem como ser racional; o homo faber é o homem que cria técnicas e o homo econimicus é o homem que age em função de seu interesse econômico pessoal. É verdade que o homem é racional, ele desenvolveu a racionalidade, mas ao mesmo tempo criou a loucura, o delírio. Eu digo que o homo sapiens é ao mesmo tempo o homo demens, capaz das maiores loucuras, até as mais criminosas, as mais insensatas. Não se pode separar os dois, porque entre os dois circula a afetividade, o sentimento, não existe racionalidade pura, até o matemático completamente dedicado à racionalidade matemática o faz com paixão.

UNIVERSO DO CONHECIMENTO – UNIVERSIDADE SÃO MARCOS. São Paulo. Brasil.